Não sei como você tem tempo
Acredito que seja a frase que mais escuto, mas que quase não me deixam espaço para responder. Eu compreendo que falam como elogio, com um tom de “nossa, que legal”. Não me sinto especial, porém. Na verdade, fico até desconfortável. Gostaria muito de responder que o que eu vivo também pode ser vivido por outros. Sei também que este tipo de resposta pode acabar desanimando e não animando quem ouve.
De fato, eu tenho um histórico de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Hoje eu vejo que isso contribuiu muito para a fase que estou vivendo agora. Mesmo sem ter tido este histórico, quero dizer que se você também não entende como dou conta é porque eu não dou, mas isso não me impede de me permitir viver do jeito que eu me sinto: livre.
Liberdade é viver como achamos que vale a pena, vivendo o hoje sem tornar o amanhã a meta impossível, sem deixar a felicidade se tornar ilusão.

Nunca romantizei a maternidade, mas a minha escolha não é vista como caminho natural para muitas mulheres. A maternidade me atravessou e me impulsiona todos os dias. Não é algo que eu possa ensinar às outras mães (mas vai ter gente nas redes sociais fazendo isso…).
Nunca romantizei o serviço público, mas minha escolha, iniciada por fatores externos, me deram a certeza que estou onde sempre quis. Não é algo que eu diga que é a melhor opção profissional nem a mais segura. Mas estou orgulhosa por estar sempre do lado do Estado: servindo e cobrando.
Nunca romantizei o cansaço da minha geração justificado por laudos que hoje são possíveis e acessíveis. Mas sempre pontuei que a terapia é necessária e libertadora, pois a carga mental pesa, corrói e destrói enquanto as pessoas te veem sorrindo.
Enquanto eu estou vivendo pode parecer fácil para você, não quero nem discutir se é assim mesmo ou não. Mas enquanto estou vivendo, você está vendo que é possível. Então não diga “não sei como você tem tempo”, mas pense “não sei como não tenho tempo”.
Descubra para onde está indo sua energia mental, o que de fato você está vivendo e o que queria viver, com quem você está, aonde você quer chegar.
Não questione se você é uma boa mãe. Você é uma mãe real. Concentre-se em criar outros seres humanos que amem e vivam intensamente.
Faça as perguntas certas para que, com o tempo, você encontre as respostas que vão te deixar mais livre. E, o mais importante, lembre-se que você só tem o hoje! Procure ajuda se você se sentir sozinho, se a dor te sufocar.
Agora você tem tempo, amanhã pode ser que não mais…

