Um dorama sobre saúde mental e relacionamentos: o amor pode ser traduzido?
O amor pode ser traduzido? (título original: 이 사랑 통역 되나요?) é uma produção da Netflix, disponível no catálogo desde janeiro de 2026. O gênero? Comédia romântica. O casal? Nada superficial. E é sobre eles que vou escrever agora.

É comum que a gente se apegue a comentários rasos do tipo “os opostos se atraem”, “mulheres expressivas casam com homens tímidos”, “pessoas equilibradas gostam de pessoas impulsivas”. Indo além da teoria, precisamos ser sinceros: há um desgaste intenso em se relacionar com alguém que é seu oposto em aspectos tão relevantes.
Quando o relacionamento esfria, a gente pensa: “talvez tenha durado demais”. Quando acaba, a gente se conforma: “não fomos compatíveis”. Mas quando o relacionamento perdura, a gente sofre. Sofre porque precisamos mudar, seja nós mesmos ou o outro. A gente ri da piada de casal na qual um dos dois é 80 e o outro é 8, mas na verdade isso dói tanto que chega a destruir um pouco de nós a cada dia.
E eu não estou dizendo que opostos não ficam juntos, o problema é achar que quanto mais opostos, mais tranquilo é por haver complementariedade. Não há. Eu gosto de ser muito expressiva, seja com palavras ou olhares. Meu marido costuma ser bem neutro, mas não o tempo todo. Ele seleciona com quem pode ficar à vontade. No fim, pode parecer, à primeira vista, que somos um casal de opostos. Mas não somos. Nosso comportamento social é diferente, nossa percepção é diferente, mas entre nós, dividimos, como os jovens dizem, “os mesmos neurônios”.
Este dorama trata com sensibilidade este tópico. Ele toca em feridas de uma forma bem artística. A Do Ra-mi (um personagem de filme que levou a protagonista ao sucesso como atriz) parece ser um elemento divertido na história, que incrementa o enredo e dá aquele toque de diferenciação que os k-dramas precisam para “bombar” no momento. Mas ela é muito mais do que isso. Ela é a projeção da ilusão de personalidade, a projeção da mente humana. O que somos para nós mesmos? Um hater? Um incentivador? Onde colocamos nossa atenção? Onde colocamos nosso coração?

A Cha Mu Hee (protagonista) pensa que tem ansiedade. Tem medo de um diagnóstico de doença mental. Logo no início ela expõe que só precisa ser medicada. Quantas vezes naturalizamos nosso estado mental? Nosso esgotamento, cansaço, abandono? Quantas vezes comentamos no Instagram ou na roda de amigos que “de perto, ninguém é normal”, mas nunca procuramos acompanhamento psicológico? Porque inutilizamos os saberes que tem a mente (e a alma) como objeto da ciência?
Em O amor pode ser traduzido?, nós vemos um casal que precisa compreender a si próprio primeiro, antes de se sintonizar com o outro. E que saber? Isso é um retrato fiel de nossas vidas. O tempo todo precisamos nos melhorar como pessoas para manter relacionamentos, sejam eles amorosos, familiares ou profissionais.
Na série, traumas ou mal entendidos vão sendo expostos e complementam as lacunas que apareceram ao longo da história. Na vida real, nem precisamos de traumas tão profundos para passar a vida se torturando. Porque a profundidade é um toque pessoal. Autoconhecimento não se compra, se vive. Mas não se vive sozinho. Precisamos saber que um amigo não substitui um profissional nem vice-versa porque não estão em disputa. Há o que pode ser terapêutico e o que pode ser terapia. O que pode ser futuro e o que já é passado. O que pode ser amor e o que é carência.
Eu desejo que você se permita descobrir. Se o amor pode ser traduzido, outras emoções também podem. Abrace sua liberdade de corpo, mente, alma e coração.


