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Quem sou eu na fila do pão?

Talvez o frenesi para você passe, mas para mim não é possível mais 💔

28 anos, funcionária pública, frequentadora de universidades públicas e privadas, moradora de bairros tranquilos a bairro “requintado”, preta (como nunca deixaram de me esquecer), participativa em tudo que você imaginar em relação a ser CIDADÃ. 

Assim que tive idade e soube da possibilidade, tirei meu título de eleitor, me voluntariei como mesária e jurada na Tribunal do Júri, doei sangue, cadastrei-me no banco de doadores de medula óssea. Participei de vários trabalhos voluntários dentro e fora da Igreja. Sempre questionei tantas coisas (já tive professora me chamando de a nova Joana D’Arc quando eu ainda só tinha 14 anos). Sempre apoiei as cotas na universidade e concursos mesmo tendo estudado em escola privada a vida toda.

Eu fiz concursos públicos. Assumi um deles e não teve um dia sequer que eu não estivesse fazendo a mais do que deveria, simplesmente porque é nisso que consiste o SERVIÇO PÚBLICO: você se doa além porque seu legado não se refere ao presente somente. A única diferença que deveria existir entre a educação pública e a privada é que esta última precisa do lucro para manter seus proprietários “ricos” e crescer a própria empresa. Na prática, vemos outra situação. Mas eu estava lá lutando com o que podia e denunciando a exploração que existe (porque sim, sempre tem gente, mesmo concursada, que quer tapar o sol com a peneira para agradar político 🫠).

Hoje eu estou à frente de meus colegas servidores, liderando um sindicato. Sindicato esse que alguns religiosos vão dizer que é vinculado ao “the monio”. Isso já quase me atingiu, mas desviei. Porque eu faço o que tenho que fazer da melhor forma possível, mesmo que os frutos não sejam vistos em breve. Eu não paro de lutar. Enquanto quem me critica se acomoda com a vida que leva e repete os dizeres de “famosos influencers”. E quando eu falo que me critica é porque todas as críticas que se voltam a quem age semelhante a mim, aplicam-se também a mim.

No próximo dia 30, muita gente vai chorar. Mas em poucos dias vão se convencer que a vida segue. E nesse seguimento vão continuar repetindo o que for mais cômodo para elas: elas não vão se tornar doadores de sangue, órgãos ou medula óssea; não vão se tornar mesários ou jurados porque se ofereceram; não vão sair nas ruas pedindo por piso salarial, não vão nem apoiar a luta pelo piso salarial; não vão recomendar o trabalho da doula porque ainda acha que “não conseguiu o parto normal” e se sentem fracas; não vão recomendar o trabalho da consultora de amamentação porque não aceita que a fórmula não seja substituto do leite materno afinal “nem toda mãe consegue ammentar”; não vão comprar o coletor menstrual porque isso é coisa de gente muito “dada”; não vai recomendar a amiga que dá aulas particulares porque isso é frescura e “no meu tempo o aluno que não acompanhava a turma era só preguiçoso”; elas vão a todo momento reforçar a ideia de o mundo de hoje tá perdido e cheio de “mimimi”; elas vão justificar a sua falta de ética de formas tão inimagináveis em tantos momentos diferentes; elas ainda dirão que me acho especial e diferente.

Mas eu sou especial e diferente.

Ninguém nunca me viu em grupos de jovens ativistas em universidade federal. E também nunca me viu apoiar e confirmar que lá é “antro de perdição” e balbúrdia. Eu passei 9 anos por lá. Eu estudei em turmas de Psicologia, Relações Internacionais e Enfermagem. Eu era alecrim dourado ou seu “influencer” te conta só o que lhe interessa?

Hoje eu estou cansada. Minha filha nascerá em poucas horas, dias ou semanas. Quem vai estar lutando para parir dignamente sou eu, enquanto você se preocupa com o possível aumento de abortos, se legalizarem, mas a redução de mortalidade materna não te preocupa, afinal você também apoia pena de morte, então fica bem equilibrado.

Nas áreas em que atuo, eu sei bem o que tenho que passar e lidar. Uma vez fui convidada a participar de um ideal de projeto para na primeira oportunidade ser convidada a se retirar, afinal eu não pensava como eles, não demonstrava agir do mesmo e também meus questionamentos não eram bem-vindos. Não foi FÁCIL processar o que houve. 

Mas se pensam que abandonarei espaços por causa de outras pessoas, estão enganados. Enquanto eu tiver uma saúde mental (e espiritual) equilibrada, eu vou ocupar esses espaços até quando me convidarem a me retirar novamente (porque tudo tem um limite).

Nunca fechei contrato como doula/consultora, mas eu nunca faria qualquer coisa ou entregaria meus serviços incompletos/duvidosos pelo dinheiro. E não é porque não preciso. Ética e caráter não se compra na esquina. Estão aí os meus valores inegociáveis. Eu posso até pedir, me humilhar, mas jamais roubar de outros assim. (Mas tem quem faça e ainda declare que não vota em ex-presidiário). 

Se for tudo pelo bem maior, eu começo pela minha família. Tudo que espero que a sociedade reproduza começa pela minha casa. Se tem alguém pegando causa alheia para definir o futuro da sua família: esse alguém não sou eu. Aqui na minha casa já tenho muito para ocupar meu dia e minha vida: defender a infância livre de violência, defender espaços separados por sexo, defender a atuação da mulher no campo profissional, defender o casamento como relacionamento saudável e não tóxico/dependente, defender a educação sob a ótica da formação humana e não profissionalizante, defender a necessidade de práticas antirracistas, defender o reconhecimento da união e crescimento pautado na ética, defender o direito da mulher em gestar, parir, amamentar e criar com rede de apoio real etc.

É, eu me sinto mesmo diferente e especial. 

Pedagoga, mãe de 3 meninas e apaixonada confessa por linhas, canetas e papéis. Inquieta por natureza, nunca parei — apenas mudei de rota quando precisei. Carrego rótulos que não me definem, mas me movem. Escrevo como vivo: com intensidade, coragem e sem querer silenciar o que sinto.

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